"O marginal é o centro: mirem-se nos homens que conhecem o que é ser mulher."
Neste filme é apresentada a história de um homem que se submete a uma vida marginal pelo desejo e amor por ser um homem que deseja e ama mulheres.
"Sou um homem feminista", João W Nery.
http://youtu.be/pH-hlc9T9kg
a travessia dos sexos e dos gêneros [diálogo continuado]
Transexuais atravessam a ideia que temos sobre gêneros, até sua referência mais radical: a forma dos sexos. É claro que elas/eles têm muito, muito, a nos ensinar sobre liberdade, sobre autonomia e sobre PODER DE ESCOLHA mais do que razoavelmente consideramos possível.
Os gêneros são chave-mestra para as relações sociais, isso é inegável para quem estuda relações sociais, assim como, é inegável para os Pajés e Yalorixás com os quais trabalhei em minha tese de doutorado. Faço questão de publicar o link do vídeo que editei para a defesa da tese, quem assistir entenderá que estou falando que Seu Avelino Trindade, pajé com quem trabalhei na pesquisa para a tese, desdobra com simplicidade o entendimento sobre limites e possibilidades sociais para as relações de gênero, supera os estudos que já fiz, inclusive para a epistemologia da antropologia, imaginem se seria difícil para ele entender e interpretar o movimento contemporâneo para a transformação nas relações sociais e, quero lembrar, a pesquisa de campo a partir da qual Seu Avelino Trindade teve a oportunidade de expor suas ideias aos "doutores burros", como ele próprio dizia.
Então, entendendo a insustentabilidade de nossas relações de gênero, não preciso dizer que nossos "centros de poder" estão podres, todas/os sabemos disso, e agora nos esforçamos para reorientar as bases econômicas de nossa vida política, isso significa recuperar a dignidade e superar a tortura cotidiana nas relações socias ("um jeito de distribuir a grana, de exercer a política, de pregar dogmas religiosos"). A base sólida para a transformação, se não está no centro, caminhemos em outro sentido, está nas margens, é óbvio.
Os gêneros são chave-mestra para as relações sociais, isso é inegável para quem estuda relações sociais, assim como, é inegável para os Pajés e Yalorixás com os quais trabalhei em minha tese de doutorado. Faço questão de publicar o link do vídeo que editei para a defesa da tese, quem assistir entenderá que estou falando que Seu Avelino Trindade, pajé com quem trabalhei na pesquisa para a tese, desdobra com simplicidade o entendimento sobre limites e possibilidades sociais para as relações de gênero, supera os estudos que já fiz, inclusive para a epistemologia da antropologia, imaginem se seria difícil para ele entender e interpretar o movimento contemporâneo para a transformação nas relações sociais e, quero lembrar, a pesquisa de campo a partir da qual Seu Avelino Trindade teve a oportunidade de expor suas ideias aos "doutores burros", como ele próprio dizia.
Então, entendendo a insustentabilidade de nossas relações de gênero, não preciso dizer que nossos "centros de poder" estão podres, todas/os sabemos disso, e agora nos esforçamos para reorientar as bases econômicas de nossa vida política, isso significa recuperar a dignidade e superar a tortura cotidiana nas relações socias ("um jeito de distribuir a grana, de exercer a política, de pregar dogmas religiosos"). A base sólida para a transformação, se não está no centro, caminhemos em outro sentido, está nas margens, é óbvio.
Nossos "centros de poder" estão sustentados pela violência, que sustenta a opressão aos movimentos sociais contemporâneos. A opressão que a violência física gerada por esses "centros de poder" estão com os pés fincados na falta de dignidade. Daí marchamos pela dignidade, é possível compreender isso?
Os "centros de poder" do "mundo hegemônico" estão hoxime, em Yanomami significa podres, o que entendo como algo fora das condições de uso para o propósito que a pretende destino.
Abro espaço para um debate sobre política e economia a partir do que vivi entre os Yanomami, para indicar o pensamento Aruak, Tukanoan, grupo com o qual trabalhei, é um dos grupos da região do Alto Rio Negro, no Brasil, que mantinham uma diversidade linguística dentro de um mesmo grupo social. Uma sociedade inquestionavelmente complexa no que diz respeito às línguas.
O pensamento Tukanoan que apresento aqui, foi apresentado pelo Yaí Avelino Trindade durante minha pesquisa de campo para o doutorado. Ele fala da transformação social contemporânea a partir da referência que apresento, na tese: as relações entre gêneros, e, mais especialmente, referindo-se à sociedade heteronormativa e hegemônica, as relações entre homens e mulheres.
Os pajés e Yalorixás, não só o Yaí Avelino, apresentam a diferença entre gêneros como a mais fundamental referência para a definição de todas diferenciações sociais para as distribuições de poder. Evidentemente, o modo como cada grupo orienta as relações de poder entre gêneros é específica de cada grupo. A questão é que os sábios tradicionais, indígenas e do Candomblé, deixam clara durante a pesquisa a relação direta e definitiva entre: poder entre gêneros e todas as outras dimensões de poder na vida social.
Então, tento explicitar a questão, se quisermos mudar a estrutura econômica e política, conforme estabelecida no mundo dos poderes hegemônicos hoje, devemos transformar as relações entre gêneros para relações equitativas, de respeito mútuo, fundamentadas na dignidade e no amor para todos. Meu sonho pessoal, para que quem ler saiba com quem estão falando, é que incluamos o prazer, o desfrute e a alegria.
Bem, não falo sobre as relações entre mulheres e homens entre os Yanomami, pois para falar sobre esse assunto precisaria de muito mais tempo entre eles. No entanto, posso dizer que fui tratada com carinho todo o tempo, até desfrutei de um sentimento fraterno que está guardado entre as relíquias dos meus afetos, e, principalmente, o único momento em que um homem Yanomami expos interesse por mim, ele estava na presença de sua mulher. Interessante isso, ela evidentemente compartilhava desse interesse, ainda que apenas assistisse a cena. Ele foi sutil e nunca mais manifestou qualquer interesse.
É interessante registrar que ele foi um homem que passou parte da infância entre garimpeiros, cujas histórias são as piores que conheço. Quero dizer que suas referências para relações entre homem e mulher em, pelo menos, um dos grupos de "brancos" que ele conheceu, foram referências de violência e abuso sexual frequentes. Por outro lado, certamente expressei decepção com a atitude deles, dele e de sua mulher. Não pude ver minha própria face, mas sei do mal estar que senti. Então, criemos nós um link entre economia e política Yanomami e a crítica e prospecção Tukanoan para as transformações no mundo a partir da mudança nas relações entre gêneros. E isso está acontecendo, agora.
Uma economia da compartilha
A paixão Yanomami pelo pertencimento ao grupo também sustenta meus argumentos, e sentimentos de quem esteve um pouco entre elas/es. É uma experiência de afeto que infere frequências diferentes aos estados de ânimo. Mas, é preciso estar lá e, em alguma medida, pertencer aos Yanomami para experimentar isso, e ouso falar assim porque essa sensação física, essa espécie de sentimento sentido nas carnes, não foi só minha. Então, se falo em centros de poder "podres", quero falar no sentido que dizem os Yanomami, "hoximi", sobre o que é imprestável como a laranja podre é imprestável para alimentar; e para a floresta, hoximi é a devastação da floresta causada pelas madeireiras; e para a água hoximi é a água com mercúrio do garimpo, matando os Yanomami. Isso entendi sobre o sentido que os Yanomami empregam para "hoximi mahi", e mahi significa muito, então é "muito imprestável, muito podre".
Abro espaço para um debate sobre política e economia a partir do que vivi entre os Yanomami, para indicar o pensamento Aruak, Tukanoan, grupo com o qual trabalhei, é um dos grupos da região do Alto Rio Negro, no Brasil, que mantinham uma diversidade linguística dentro de um mesmo grupo social. Uma sociedade inquestionavelmente complexa no que diz respeito às línguas.
O pensamento Tukanoan que apresento aqui, foi apresentado pelo Yaí Avelino Trindade durante minha pesquisa de campo para o doutorado. Ele fala da transformação social contemporânea a partir da referência que apresento, na tese: as relações entre gêneros, e, mais especialmente, referindo-se à sociedade heteronormativa e hegemônica, as relações entre homens e mulheres.
Os pajés e Yalorixás, não só o Yaí Avelino, apresentam a diferença entre gêneros como a mais fundamental referência para a definição de todas diferenciações sociais para as distribuições de poder. Evidentemente, o modo como cada grupo orienta as relações de poder entre gêneros é específica de cada grupo. A questão é que os sábios tradicionais, indígenas e do Candomblé, deixam clara durante a pesquisa a relação direta e definitiva entre: poder entre gêneros e todas as outras dimensões de poder na vida social.
Então, tento explicitar a questão, se quisermos mudar a estrutura econômica e política, conforme estabelecida no mundo dos poderes hegemônicos hoje, devemos transformar as relações entre gêneros para relações equitativas, de respeito mútuo, fundamentadas na dignidade e no amor para todos. Meu sonho pessoal, para que quem ler saiba com quem estão falando, é que incluamos o prazer, o desfrute e a alegria.
Bem, não falo sobre as relações entre mulheres e homens entre os Yanomami, pois para falar sobre esse assunto precisaria de muito mais tempo entre eles. No entanto, posso dizer que fui tratada com carinho todo o tempo, até desfrutei de um sentimento fraterno que está guardado entre as relíquias dos meus afetos, e, principalmente, o único momento em que um homem Yanomami expos interesse por mim, ele estava na presença de sua mulher. Interessante isso, ela evidentemente compartilhava desse interesse, ainda que apenas assistisse a cena. Ele foi sutil e nunca mais manifestou qualquer interesse.
É interessante registrar que ele foi um homem que passou parte da infância entre garimpeiros, cujas histórias são as piores que conheço. Quero dizer que suas referências para relações entre homem e mulher em, pelo menos, um dos grupos de "brancos" que ele conheceu, foram referências de violência e abuso sexual frequentes. Por outro lado, certamente expressei decepção com a atitude deles, dele e de sua mulher. Não pude ver minha própria face, mas sei do mal estar que senti. Então, criemos nós um link entre economia e política Yanomami e a crítica e prospecção Tukanoan para as transformações no mundo a partir da mudança nas relações entre gêneros. E isso está acontecendo, agora.
Uma economia da compartilha
A paixão Yanomami pelo pertencimento ao grupo também sustenta meus argumentos, e sentimentos de quem esteve um pouco entre elas/es. É uma experiência de afeto que infere frequências diferentes aos estados de ânimo. Mas, é preciso estar lá e, em alguma medida, pertencer aos Yanomami para experimentar isso, e ouso falar assim porque essa sensação física, essa espécie de sentimento sentido nas carnes, não foi só minha. Então, se falo em centros de poder "podres", quero falar no sentido que dizem os Yanomami, "hoximi", sobre o que é imprestável como a laranja podre é imprestável para alimentar; e para a floresta, hoximi é a devastação da floresta causada pelas madeireiras; e para a água hoximi é a água com mercúrio do garimpo, matando os Yanomami. Isso entendi sobre o sentido que os Yanomami empregam para "hoximi mahi", e mahi significa muito, então é "muito imprestável, muito podre".
Interessante notar que para as relações econômicas e políticas os Yanomami também empregam a palavra hoximi. Hoximi é uma palavra usada para identificar alguém sovina, sejamos minimamente inteligentes e permitamos compreender que a palavra sovina, quando usada para identificar, diferenciar, uma pessoa no grupo, está relacionado com economia. Para os Yanomami toda pessoa sovina é uma espécie de hoximi-social. Então, do ponto de vista da economia que regula as relações sociais Yanomami hoximi quer dizer um comportamento que define uma economia-podre, e pessoas sovinas são podres, não prestam socialmente, quero dizer, estão estragadas e estragam a vida social Yanomami.
Chega a ser bonitinha essa ideia quando a gente conhece o amor da compartilha, para além da sobrevivência e até pela sobrevivência, a compartilha, inclusive de dinheiro, expressa, nesse caso, entre os Yanomami, amor. O amor para aquele jeito Yanomami de vida econômica, política, social, é fundado na compartilha.
Vamos pensar o que pode significar o amor para os Yanomami que não comem de sua própria caça, pelo contrário, suas caças só servem para alimentar as "outras" pessoas, "outras" no sentido em que empregamos, às vezes, até para dependentes. Então, vamos entender que, por exemplo, não comer da própria caça para um caçador Yanomami é uma expressão de amor ao grupo social. Sim, nós precisamos aprender a amar com os Yanomami, a pertencer à Humanidade, a acreditar na Humanidade, porque Yanomami significa Humanidade, a mais honrada, perfeita, plena forma de Humanidade. Aprendi com os povos indígenas que a excelência humana existe e é o melhor que podemos viver.
"Minha caça é para alimentar vocês", diz o caçador Yanomami, enquanto carrega a caça que alimentará outras pessoas, e que deve ser a melhor, a maior possível, para que as pessoas amadas comam com fartura e reconheçam sua felicidade em oferecer condições para elas se alimentarem. E, confiem, existe sentimento, emoção, nessas oferendas e partilhas.
Exaustivamente expando as ideias sobre os Yanomami para chegar num outro indígena, um que teve a "oportunidade" de conhecer muito de perto nossas estratégias econômicas e políticas, porque tinha por destino viver a escravidão do aviamento na primeira metade do séc. XX no Amazonas, e faz notar que a politica e a economia se constituem no cotidiano a partir das relações entre gêneros. Indico na tese que, quanto mais opressão política e econômica, mais opressão entre gêneros. E do reconhecimento equitativo entre antropóloga e "pesquisados", pajés e afro-religiosos, enquanto sujeitos do conhecimento em antropologia, o Pajé Avelino diz, que é preciso mudar o mundo para mudar a antropologia, então aponta: "surgirá um novo mundo onde as mulheres vão nascer em corpos de homens e os homens em corpos de mulheres".
E essas epistemologias das relações equitativas anunciam um novo mundo na voz do pajé, e isso é uma interpretação sobre as condições da tranformação social que vivemos, vamos reconhecer que se trata de mulheres e homens com competência para interpretar nossa vida social melhor do que estávamos fazendo, nós, antropólogas/os, com competência suficiente para afirmar as perspectivas de futuro sem titubear sobre os resultados. Tão firme quanto no prognóstico sobre a amputação da perna de uma menina, disse o Pajé, "não precisa amputar a perna", enquanto uma equipe de médicos se preparava para deixar a menina crescer mulher-manca.
Para o razoável antropologuês, digo na tese que se trata de uma mudança no espaço de poder social para "homem" e "mulher" nesse "mundo dos brancos", que já não é tão dos "brancos" assim, é mundo dos pajés e das Yalorixás também.
Se eu fosse uma missionária talvez dissesse que o Pajé fez uma "profecia", mas, como sou antropóloga, quero dizer que me referencio especialmente em etnografias para afirmar algo, digo que aquele senhor, dono de um extraordinário conhecimento sobre o corpo, a psique e a vida social humana, que passou a vida inteira "etnografando" o "mundo dos brancos", de uma perspectiva distanciada e sob estranhamento sobre tudo o que fazemos, digo que aquele homem me deu o privilégio de conhecer uma interpretação sua sobre as condições contemporâneas que determinam a transformação social que este nosso modo de vida social impôs a si mesmo em seu esgotamento, e também sobre os resultados, as perspectivas, que estas condições alcançam.
Para o razoável antropologuês, digo na tese que se trata de uma mudança no espaço de poder social para "homem" e "mulher" nesse "mundo dos brancos", que já não é tão dos "brancos" assim, é mundo dos pajés e das Yalorixás também.
Se eu fosse uma missionária talvez dissesse que o Pajé fez uma "profecia", mas, como sou antropóloga, quero dizer que me referencio especialmente em etnografias para afirmar algo, digo que aquele senhor, dono de um extraordinário conhecimento sobre o corpo, a psique e a vida social humana, que passou a vida inteira "etnografando" o "mundo dos brancos", de uma perspectiva distanciada e sob estranhamento sobre tudo o que fazemos, digo que aquele homem me deu o privilégio de conhecer uma interpretação sua sobre as condições contemporâneas que determinam a transformação social que este nosso modo de vida social impôs a si mesmo em seu esgotamento, e também sobre os resultados, as perspectivas, que estas condições alcançam.
"Este mundo tem que acabar", disse o Pajé Avelino, e eu traduzo - "as condições para as relações econômicas e políticas, do jeito como estão sendo vividas, não é mais possível continuar".
Mas, sua análise não se reduz a "vai mudar", ele diz algo mais importante que o óbvio, ele também diz como vai mudar nosso modo de vida: "homens vão nascer em corpos de mulheres e mulheres vão nascer em corpos de homens".
Desde as referências dos seus ancestrais e com base em sua interpretação das condições contemporâneas, com sorriso nos lábios, e tranquilidade no olhar, diz "não se preocupa, Jakeline, o outro mundo é muito melhor do que esse, até as ruas, as avenidas, são decoradas com azulejos, tudo muito lindo, como o Mundo dos Encantados".
Assim sendo, entendo que alguém como ele, um estrangeiro que sobreviveu a todo tipo de violência do "mundo dos brancos", e manteve o riso na face, alguém assim pode dizer sobre nós o que não conseguimos. e muitos deles têm muito a dizer, vamos ouvir? Segue o filme abaixo:
Vamos ouvir as margens, os estranhos, os estrangeiros, e prestar atenção nas transformações para as relações entre gêneros desde o seu movimento mais "marginal" e, portanto, converte-se em centro. Falo dos transexuais, a mais evidente travessia humana para as relações entre gêneros, vivida no corpo, na identidade, o diálogo sobre as diferenças em sua mistura, transcendência. Porque é evidentemente essas pessoas são capazes de apresentar o poder inabalável de superar a "intransponível" fronteira entre gêneros. Talvez a mais dura determinação social.
Vamos aprender a suportar a desconstrução do poder entre gêneros, por amor, por prazer. E defender a inteligência e a sensibilidade indicadora de alternativas e reflexões sobre nossas estratégias sociais.
Posso citar como exemplo desse exercício cotidiano de superação e sobrevivência, a Uganda, na foto. Afinal, "o novo mundo é muito melhor do que esse, as mulheres vão nascer em corpos de homens, e os homens em corpos de mulheres." (Avelino Trindade).

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